Por que temos tão poucos artistas plásticos cristãos? | Rafaela Senfft

Por Rafaela Senfft*

A produção artística na comunidade cristã é ainda incipiente no campo das artes plásticas. Há muito tempo os cristãos se alienaram dessas práticas artísticas, talvez porque não tenham conseguido agregá-las à vida cristã comunitária nem incluí-las no âmbito da expressão estética do Reino de Deus. As preocupações em preparar-se espiritualmente para a volta de Jesus, abstendo-se de tudo o que considerava “secular”, bem como o cuidado para não contaminar-se com o “mundanismo’, acabou jogando no cesto do secularismo muitas coisas que refletiriam a glória de Deus. Muitas expressões musicais, por exemplo, que falam da natureza, da existência, dos sentimentos humanos, foram desprezadas pelos ouvidos cristãos porque foi-lhes ensinado a suprimir o que era “terreno” em troca da transcendência. Com isso, perdeu-se a oportunidade de expandir o conteúdo do louvor literal. Acontece que a ausência desses elementos que muitas vezes são negligenciados em função de um temor de se aliar ao secularismo, como a percepção e a reflexão sobre as coisas naturais e existenciais, resulta num esvaziamento inóspito do “patamar superior”, pois faltam elementos e recursos criativos; e a ideia de céu cai naquele imaginário clichê monocromático que consiste em anjinhos tocando harpa sobre nuvens.
Um dilema histórico pode nos ajudar a desenvolver este raciocínio. Desde quando o imperador Constantino instituiu as Basílicas Romanas como locais de culto cristão, decorar ou não as igrejas foi um assunto amplamente discutido. A decoração das basílicas dependia de quão iconoclastas os papas eram. Alguns viam as imagens com parcial importância, pois estas serviriam a fins didáticos, a maioria da população não sabia ler e as cenas bíblicas desenhadas nas paredes ajudariam estas pessoas a conhecer a narrativa cristã. Outros pensavam na arte como reflexo da glória de Deus, por ser um talento dado pelo próprio Deus, refletia Seu poder vocacional sobre homens a fim de glorificá-lo, e ainda na própria noção do Belo como uma virtude elevada, o resplendor das formas e cores seriam símbolos da glória divina, e a arte serviria como veículo transportador até à transcendência. 

Os iconoclastas temiam que as imagens se tornassem como “bezerros de ouro” utilizados para a prática da idolatria, tomando o lugar de Deus. Os protestantes brasileiros acabaram se aproximando desta ultima ideia e o resultado disso foi uma pobreza estética que inibe a imaginação. Fomos privados de um aprendizado simbólico que produziria em nós um repertório riquíssimo de significados. Por causa desta privação, nos tornamos pouco imaginativos e muito pragmáticos; e, portanto, tão pouco ligados à ideia de eternidade (pois pensar na eternidade requer materiais imaginários e simbólicos complexos). Talvez por esta ausência, haja também tanto desinteresse pela narrativa bíblica, principalmente pelo Antigo Testamento. A imaginação é algo essencial na saga dos heróis da fé. Com ela é mais prazeroso habitar na História e se deixar fruir com ela.
Penso o quanto é importante uma educação simbólica e artística na escola (e por que não na igreja?), pois ela tem o poder de trazer estes recursos que enriquecem a vida. Vida com Deus requer imaginação! A arte tem o poder de fazer fruir o pensamento, ela serve para desenvolver uma visão de mundo menos formatada; ela serve como uma forma de transformar pedras em coelhos, tesouras em corujas. Arte serve para manter acesa a chama do imaginário, a única que propõe uma dança em meio a situações mais conflitantes da vida; é aprender a ter leveza, a ver respostas e soluções no infinito, é atravessar as paredes do materialismo para buscar respostas necessárias à condição humana.
Excluir das manifestações estéticas o sentimento autêntico humano ou o cheiro da flor não é servir ao mundanismo, pois o próprio Deus permitiu que ambos existissem. Não decorar as igrejas ou não se deliciar na tinta fresca sobre a tela por causa de uma interpretação equivocada de idolatria não é se alienar, ao contrário, se Deus é tão rico em sua criação, então por que não celebrar e levá-la de uma forma instigante as outras pessoas? Expressar artisticamente é amar, quando se faz isso dentro de uma ordem lógica inteligente; a arte pode falar da dor, mas deve trazer a esperança, pois a arte do cristão precisa refletir sua visão de mundo. O artista não precisa representar apenas anjos, santos ou Jesus crucificado; o artista cristão precisa utilizar da arte como uma seta que aponta para um Novo Reino, provocar uma centelha de esperança do coração das pessoas. O artista cristão deve ensinar o outro a descansar, deleitar, a se entregar a um novo mundo que foi inaugurado por Cristo de onde emana a fonte de toda a beleza e que ao olhar uma obra de arte tão arrebatadora por sua beleza, imaginar que um dia adentraremos num lugar tão mágico quanto!
A arte, quando pautada numa visão de mundo correta dentro do relacionamento com Deus, é capaz de comunicar coisas grandiosas, desvendar tesouros escondidos. Mas é importante que o artista vivencie experiências estéticas e busque conhecimento para que, com um olhar permeado da graça de Cristo, possa assumir uma produção responsável.
A produção artística no Brasil é incipiente, mas está acontecendo. Deixo minha sugestão de uma literatura imprescindível para todos os artistas cristãos: A Arte Moderna e a Morte da Cultura, de Hans Rookmaarker. É um livro elementar para a busca de um conhecimento estético complexo. Rookmaarker faz uma leitura da arte na história com um olhar redentivo, e, a partir deste conhecimento, aponta diretrizes de uma arte de quem busca um cristianismo que integra trabalho, vocação, missão e relacionamento através da arte.
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Rafaela Senfft é artista plástica e professora de História da Arte. É membro da Igreja Esperança, em Belo Horizonte (MG). Texto originalmente publicado aqui.
Henrique Luna

Pecador eleito de Deus para andar em boas obras, regenerado pelo poder do Espírito Santo, salvo pela graça e justificado por meio da fé em Jesus Cristo.

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